26/11/2011

Não Dês Esmola a Santinhos






MOTE
Não dês esmola a santinhos, 
Se queres ser bom cidadão; 
Dá antes aos pobrezinhos 
Uma fatia de pão. 

GLOSAS 

Não dês, porque a padralhada 
Pega nas tuas esmolinhas 
E compra frangos e galinhas 
Para comer de tomatada; 
E os santos não provam nada, 
Nem o cheiro, coitadinhos... 
Os padres bebem bons vinhos 
Por taças finas, bonitas... 
Se elas são p'ra parasitas, 
Não dês esmola a santinhos. 

Missas não mandes dizer, 
Nem lhes faças mais promessas 
E nem mandes armar essas 
Se um dia alguém te morrer. 
Não dês nada que fazer 
Ao padre e ao sacristão, 
A ver para onde eles vão... 
Trabalhar, não, com certeza. 
Dá sempre esmola à pobreza 
Se queres ser bom cidadão. 

Tu não vês que aquela gente 
Chega até a fingir que chora, 
Afirmando o que ignora, 
Assim descaradamente!?... 
Arranjam voz comovente 
Para jludir os parvinhos 
E fazem-se muito mansinhos, 
Que é o seu modo de mamar; 
Portanto, o que lhe hás-de dar, 
Dá antes aos pobrezinhos. 

Lembra-te o que, à sexta-feira, 
O sacristão — o mariola! — 
Diz, quando pede a esmola: 
«Isto é p'rà ajuda da cera»... 
Já poucos caem na asneira, 
Mas em tempos que lá vão, 
Juntavam grande porção 
De dinheiro, em prata e cobre, 
E não davam a um pobre 
Uma fatia de pão. 

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

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