30/06/2011

Adeus, Covilhã

«E, de repente, o aeródromo – um símbolo da cidade durante décadas e local de especial importância para uma das maiores mais-valias da Universidade da Beira Interior, a licenciatura em Aeronáutica ­ - vai desaparecer. 

E, devagarinho, a Covilhã morre também. A gestão da cidade tem sido desastrosa, nos últimos anos. Não se duvida das boas intenções da autarquia, ao ceder o aeródromo para a instalação de um centro de dados da PT. Afinal, em tempo de crise todo e qualquer emprego e investimento que se possa fixar no concelho é uma bênção. Mas é na perceção da relação entre o investimento captado e as soluções que melhor possam beneficiar a cidade e quem lá vive que reside uma boa gestão. Certamente que com alguma boa-vontade se conseguiria arranjar uma solução para a PT que não melindrasse o sector aeronáutico – de resto, a Covilhã teria avançado mais se, nos últimos anos, a aposta nesta área tivesse sido maior.

Afinal, o que se passa na Covilhã? O descalabro terá começado, porventura, quando a PSP abandonou o centro. Seguiram-se outros serviços. O fenómeno não é novo: a tendência, nas pequenas e médias cidades, é para a deslocalização do comércio e dos serviços dos velhos centros históricos – algo que a médio e longo prazo se irá revelar numa verdadeira dor de cabeça para as Câmaras. O mercado foi substituído por um moderno call-center. Verdade seja dita: foi um investimento importantíssimo. Trouxe para a cidade centenas de postos de trabalho, mais ou menos precários, mas que têm contribuído para a fixação de alguns recém-licenciados. De qualquer forma, a ideia de construir um novo mercado a caminho da serra, ao lado do cemitério, nunca convenceu ninguém. Além disso, a Covilhã continua a ser a única cidade da região sem uma sala de espetáculos digna – apesar da novela do teatro-cine.

Nos entretantos, construiu-se a ponte mais sexy da Europa. Um investimento caríssimo e notável - mais do ponto de vista visual e arquitetónico do que propriamente do ponto de vista funcional. Construiu-se também um ascensor ali para os lados dos Leões. Obras essenciais? Quando se gere dinheiros públicos é preciso atender a todas as solicitações. E é na escolha de prioridades que se distinguem os bons gestores.

A desordem urbanística da cidade já não tem remédio. A rua que leva à garagem de São João mete medo – um verdadeiro cadáver urbano. O edifício da garagem, um dos mais belos do país, continua de pé quase por milagre, sem qualquer utilidade (não poderia ser reconvertido em mercado municipal, por exemplo?) e agora serve para acolher, de passagem, pequenas óperas que, e bem, lembram que aquele espaço existe.

O turismo está subaproveitado. A desarticulação entre as várias entidades é demasiado óbvia para poder ser desculpável. A cidade até se dá ao luxo de ter dois organismos distintos e rivais para promover a Serra. Facto inédito em Portugal? Desarranjos de empatias em nada contribuem para o desenvolvimento da região – e têm sido, precisamente, o maior cancro da região. Até o arco da universidade – outrora o símbolo de uma cidade cheia de potencial e esperança – parece mais triste.

O parque da Goldra é estranhíssimo e não tem utilidade na maior parte do ano. Os melhoramentos na rotunda da universidade são visualmente notáveis. Mas de pouco serviram. Uma cidade não pode viver única e exclusivamente dos clientes de uma universidade.

Gerir bem é saber escutar quem vive na cidade. E também adivinhar o futuro. Alguns autarcas souberem precaver-se. O dinheiro das autarquias vai escassear. Os próximos tempos serão de estagnação de investimento. Quem não investiu até aqui – e bem – não o poderá fazer de agora em diante. Por isso, é bom que os covilhanenses estejam conscientes de que nada de novo surgirá nos próximos anos – muito menos um aeroporto, como foi anunciado. Não há dinheiro. E vai haver ainda menos.

A Guarda, apesar de tudo, teve alguma inteligência. O TMG é uma sala de referência nacional. O edifício da biblioteca Eduardo Lourenço é elegantíssimo e veio revitalizar um pedaço estratégico da cidade. A própria Praça Velha, quer se goste ou não, ganhou novo rosto. E o centro histórico tem vida, graças à mais acertada de todas as decisões: não deixar o moderníssimo centro comercial fugir para a periferia da cidade e assim deixar o centro histórico moribundo. E a Covilhã? É preciso perguntar aos covilhanenses se o programa Polis melhorou, de alguma maneira, a sua qualidade de vida. A cidade da lã e da neve – uma das mais bonitas do mundo – já não tem nada de lã, nem de neve, nem de nada. E o futuro não é promissor. A fatura vai chegar em breve, numa altura em que o desemprego será galopante e a autarquia terá de se concentrar em pagar a dívida acumulada. As tricas, as incompatibilidades, os amuos entre instituições provavelmente continuarão. Nem o Parkurbis terá remédio. E, pelos vistos, nem a aeronáutica. Sobra a Saúde – que, esperemos, continuará a afirmar-se.

Enquanto o inferno se instala, o presidente da Câmara está ausente, a terminar uma licenciatura. Na Covilhã, chegou-se ao ponto de as presidências da Câmara serem rotativas por várias pessoas. Adeus, Covilhã.


PS: Numa das últimas reuniões de Câmara, Carlos Pinto disse que o aeródromo é “uma espécie de jardim-de-infância para certas pessoas andarem ali a brincar aos aviõezinhos de plástico”. Outra dica para uma boa gestão autárquica: respeitar e tratar condignamente todas as pessoas e o seu trabalho, por humilde que sejam. Curiosamente, em 2008, quando assinou um protocolo com a ALEIA e a UBI para a instalação de uma empresa aeronáutica na cidade, o discurso de Carlos Pinto foi ligeiramente diferente: “ É com prazer que acolhemos a ALEIA na Covilhã porque este investimento representará para a Cidade e para a sua Universidade uma nova via de desenvolvimento e estará, esta região, a contribuir para o prestígio da indústria aeronáutica portuguesa”, disse.

Por: Rosa Ramos»

in: O Interior

* - Sobre os Comboios: 
http://cafe-mondego.blogspot.com/2011/06/espantoso.html


2 comentários:

Spawm disse...

A panela está gira a ferver mas em vez de um caranguejo devia ter um mexilão!

Já ligaram o fogão hoje!

El Sofa disse...

Sou um guardense e confesso que durante muito tempo depositei grande fé nesta cidade. E embora continue a adorá-la, é inegável que esta segue um rumo descendente que parece não ter travão! Aquilo que o artigo fala sobre a Guarda é, sem sombra de dúvida, aquilo de que temos melhor na nossa cidade, e ninguém questiona a importância de tais projectos ou a projecção que têm por este país fora, especialmente o TMG, essa magnífica sala de espectáculos que eu nunca me canso de elogiar. No entanto, falam-se aqui de projectos com anos já e que, mais uma vez reforçando o seu carácter regenerador e impulsionador de dinâmicas, não faz, de um modo efectivo, esta cidade avançar. E a verdade é que a Guarda não avança. O desemprego cresce de forma galopante, as empresas fecham e a cidade tem uma aura negra a pairar sobre ela. Quem vai à zona da estação com alguma frequência percebe o que eu digo: uma cidade moribunda, quase fantasma, com as suas gentes a tentar agarrar-se a um pouco de esperança por um amanhã melhor. Mas a esperança, embora importante, não governa ninguém e não possibilita o desenvolvimento! O emprego sim. Embora a Covilhã esteja na situação penosa que podemos ver, ainda tem dois ou três trunfos: uma Universidade (inegavelmente um grande motor de desenvolvimento), uma aposta de valor na investigação e desenvolvimento (importantíssimo!) e a capacidade de captar investimento. Não estou aqui a dizer que este investimento da PT é formidável, e muito menos do tipo mais desejável, dada a precariedade dos postos de trabalho que vai gerar, mas é um projecto inovador e, a verdade, é que gera emprego. Na notícia que li sobre a este empreendimento a PT justificava a escolha da Covilhã com "bons acessos e impacto positivo social"; a meu ver a Guarda preenche estes dois "requisitos" com muito mais distinção, se me permitem o termo. Por outro lado, penso que aqui se tratou de uma questão de trabalho das autarquias, e mais uma vez a da Guarda ficou para trás. Da mesma forma que para trás ficaram projectos em que os guardenses tiveram dificuldades em acreditar e que a autarquia não foi capaz de provar de que estavam errados: basta olhar para uma PLIE quase deserta.

P.S.: gostaria de ver um post ou outro relativamente a essa questão da PLIE, já que não tenho visto notícias sobre esse assunto.